Terreiro Mokambo é certificado como patrimônio nacional

Correio da Bahia – BA, Cilene Brito
13/08/2006

O Terreiro Mokambo, na Vila Dois de Julho, Trobogy, recebeu ontem a Certificação de Reconhecimento como Patrimônio Afro-Brasileiro pelo Ministério da Cultura, através da Fundação Cultural Palmares. Com a certificação, o terreiro, considerado o mais novo do Brasil, com apenas 10 anos de fundação, passou a ser reconhecido pelo governo brasileiro como espaço sagrado de preservação da cultura da herança africana e um patrimônio imaterial da sociedade brasileira.

A casa de Nação Angola, liderada pelo pai Anselmo dos Santos, é conhecida como Onzó Nguzo za Nkisi Dandalunda ye Tempo (’Casa das forças espirituais das dinvindades Dandalunda e Tempo’). A certificação foi comemorada com uma cerimônia religiosa em celebração ao inquice Tempo, o rei da nação. O Mokambo foi o primeiro de cinco terreiros baianos que também receberão a certificação. Também serão beneficiados Manso Dandalungua Cocuazena, na Estrada Velha do Aeroporto, Axé Abassá de Ogun, em Itapuã, Maroketu, em Cosme de Farias, e Babaegun, na I-lha de Itaparica.

Durante a entrega do certificado, o presidente da Fundação Palmares, Ubiratan Castro, falou sobre a importância do título. Segundo ele, a idéia surgiu com a intenção de preservação e manutenção da religião e cultura africana. Através da iniciativa, segundo ele, todos os terreiros poderão receber investimentos do poder público, o que era proibido por serem considerados propriedades particulares.

‘Esta é uma garantia de proteção, com o reconhecimento do governo brasileiro da importância da comunidade e dos seus bens. A certificação também é uma garantia para justificar qualquer investimento que estas comunidades necessitem. Tínhamos muita dificuldade de ajudar um terreiro, porque a legislação não permite que eles se benficiem sem ser reconhecidos como um patrimônio. Com essa iniciativa, eles poderão receber ajuda para reforma e manutenção’, salientou.

Ele explica que este é o primeiro passo para o tombamento. Hoje, só existem cinco terreiros brasileiros, sendo quatro na Bahia, tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). São eles: Ilê Axé Opô Afonjá, em São Gonçalo do Retiro, Bate Folha, na Mata Escura, Alaketu, no Matatu, Casa Branca, no Engenho velho da Federação, além do Casa da Nina, no Maranhão. ‘O processo de tombamento dura, em média, cinco anos. Enquanto lutamos para isso, eles já estão protegidos’.

A seleção dos terreiros foi feita a partir de uma pesquisa realizada pelo Centro de Estudos das Populações Afro e Indígenas Americanas (Cepaia) da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), baseada nos projetos enviados pelos terreiros. A pesquisa avaliou, dentre outros aspectos, valores culturais como as práticas, expressões e conhecimentos do terreiro, além de seus instrumentos e objetos artísticos e sua representação na comunidade onde estão inseridos.

‘Estou muito feliz com a certificação. Este é um reconhecimento de nosso trabalho. Ele representa a salvaguarda dos direitos religiosos. A partir de agora, o terreiro estará garantido para as próximas gerações. Vou morrer sabendo que nehuma edificação será construída em seu lugar’, afirmou pai Anselmo Santos, fundador do terreiro. Feliz com a certificação, ele contou que a seriedade e o respeito com que a casa trata as tradições da nação Angola foram aspectos importantes para a certificação. ‘Não estou desmerecendo as outras casas, mas algumas que não levam a sério a religiosidade’, salientou.

Com a certificação, ele tem esperança de conseguir recursos para manutenção e ampliação. Embora tenha apenas dez anos, a sua construção, feita sobre um terreno de declive, vem comprometendo a estrutura do imóvel. Várias paredes estão rachadas e o piso está cedendo. Também há infiltrações. ‘Tudo o que fizemos até hoje foi com recursos próprios. Até bingo já realizamos’, ressaltou pai Anselmo que pretende usar os recursos para a manutenção dos projetos sociais realizados no terreiro, através da Associação Beneficente Pena Dourada.

4 Comments

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    Tatiane - 17 de abril de 2011

    Obrigada por cruzar os meus caminhos! Te amo muito!

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    Mameto Lembalinan - 13 de junho de 2011

    Belissima apresentação deste grandioso espaço dA CULTURA BANTU.PARABENS MEU AVÔ AMADO SUCESSO E ATÉ BREVE TE AMO MUITO

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    orgulho - 16 de junho de 2011

    Tenho muito orgulho de conhecer pai Anselmo e ter visto todas as coisas boas que ele faz pela comunidade e pude ver de perto o amor e a dedicaçao que faz dele ser este mestre espiritual tão maravilhoso,trata a todas as pessoas que o procuram sem fazer nenhum tipo de diferença se e rico ou pobre se e preto ou branco. Que Deus possa esta te abençoando sempre.

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    Jeanne Pimenta - 15 de agosto de 2011

    Fico feliz quando vejo esse tipo de notícia. é realmente importante que essas unidades permanentes onde nasce e renasce a cultura sejam reconhecidas como tal e tenham o devido apoio do poder publico pois diz respeito não só ao grupo participante do candomblé, mas a todos nós como brasileiros. Seria maravilhoso se esta noticia se alargasse a todas as casas que praticam a religião com seriedade.

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