Tata Anselmo é Cidadão Baiano

Diário Legislativo
21/10/2005


A história de amor incondicional de Anselmo José da Gama pela Bahia ganhou mais um capítulo ontem, quando a Assembléia Legislativa retribuiu este afeto concedendo-lhe o título de Cidadão Baiano, por iniciativa da deputada Lídice da Mata (PSB). Carioca de nascimento, foi aqui que ele chegou a tata (pai-de-santo no rito Angola) do Terreiro Mokambo, no Trobogy, bairro onde a atuação de Anselmo transcende o âmbito cultural-religioso, refletindo-se no extraordinário trabalho social que desenvolve ali, segundo palavras da parlamentar.

A sessão especial para a concessão do título se constituiu em uma celebração, iniciada com chuva de pétalas de rosa pulverizadas de água-de-cheiro na chegada do homenageado ao plenário, acompanhado pelo deputado Walmir Mota (PPS), por designação da presidente ad hoc, Eliana Boaventura (PP). Ali se podia ouvir desejos de mukuiu para quem é do mukuiu, axé para quem é do axé e a bênção para quem é da bênção. “Mukuiu para todos”, como resumiu Luciano Costa, do Terreiro Mokambo, que fez uma saudação especial ao tata Anselmo.

Ao final da sessão, o homenageado recebeu os cumprimentos no saguão contíguo ao plenário, onde foram oferecidos acarajés e abarás. A mesa dos trabalhos foi constituída, além de Eliana, por Walmir e Lídice, e mais Gilmar Santiago, secretário Municipal de Reparação; Leonel Monteiro, da Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro-ameríndia; e Celso Cotrim, representando a Secretaria Municipal de Economia, Emprego e Renda.

Ações pela comunidade

O pronunciamento de Lídice da Mata contou a história de tata Anselmo e seu trabalho de ação social e de preservação cultural, ao manter as tradições do rito Angola em seu terreiro. Iniciado no candomblé ainda no Rio de Janeiro, foi na Bahia, pelas mãos de Mãe Mirinha de Portão, que ele consolidou sua vida religiosa. Foi o exemplo de vida dela que o levou a fundar no terreiro a Associação Beneficente Pena Dourada, “que vem realizando importantes ações em favor da comunidade”.

A associação, citou Lídice, colocou pavimentação e escoamento pluvial nas ruas, oferece serviço médico quinzenal, em parceria com a associação de moradores, além de projetos culturais e de capacitação de jovens, sempre em parceria com entidades como a prefeitura de Salvador e o Ceafro. No sentido de preservação cultural, Anselmo colabora intensamente com a Associação Cultural de Preservação do Patrimônio Bantu.

Lídice disse que conheceu o trabalho de Anselmo quando ainda era prefeita de Salvador, e estava implantando o Projeto Jardins das Folhas Sagradas, com a finalidade de preservar e proteger os “templos negros de Salvador”. Também neste sentido, o tata desenvolveu o Projeto Etnobotânico nas comunidades remanescentes de Quilombolas, junto à Secretaria Especial de Promoção de Políticas de Igualdade Racial.

Mirinha: régua e compasso

Um minuto de silêncio antecedeu as palavras de agradecimento do tata Anselmo, em intenção da ancestralidade, em especial a Mãe Zu, a Guaiaku Luiza e Mãe Olga, sacerdotisas mortas este ano. Ele fez menção especial aos pais, a Mãe Mirinha de Portão, que lhe deu “régua e compasso para trilhar o caminho de forma digna dentro do candomblé, respeitando nossa tradição religiosa e procurando, sempre, ajudar ao próximo”. Relembrando sua chegada à Bahia, nos anos 70, disse ter tido o privilégio de ver o estado se desenvolver.

O agradecimento continuou em forma de homenagem ao povo-de-santo, em que tata Anselmo citou diversas personalidades com as quais convive ou conviveu durante seus 30 anos de iniciado, nos quais esteve à frente do Terreiro Mokambo. Entre estas pessoas, Lídice da Mata, “que tenho o maior prazer em fazer parte do grupo de pessoas que têm o privilégio do seu convívio”. Foi na ocasião em que ela era prefeita que a Associação Beneficente Pena Dourada, criada por ele para dar assistência à comunidade do Trobogy, foi reconhecida como de utilidade pública. Ele ainda elogiou a gestão de Lídice por ter reflexos até hoje na área social, como a Casa de Oxum e o Projeto Cidade-mãe.

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