Candomblé na luta por respeito

Fonte: A Tarde
15/09/2007

Meire Oliveira -mroliveira@grupoatarde.com.br

Trajes de baiana e a culinária de dar água na boca são símbolos fortes que povoam o imaginário de turistas quando se fala em Bahia. Entretanto, por também estar associado à cultura local, o candomblé acaba, em alguns casos, sendo confundido como manifestação folclórica ou mercantilizado por quem anda faturando com visitas a templos religiosos.

Cerimônia religiosa como apresentação artística e a comida ritual como jantar. É assim que parte dos guias avulsos e agências, já que algumas cerimônias são abertas ao público, cobram entre R$ 50 e R$ 95, por pessoa, para levar turistas nacionais e estrangeiros a várias casas. Mas o que tem preocupado sacerdotes e sacerdotisas não são as visitas, mas a forma como são feitas. “Os visitantes devem levar a impressão correta, encarando o candomblé como religião.

Precisamos acordar os turistas”, diz a ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá (Cabula), mãe Stella de Oxóssi.

A cerimônia, a musicalidade e o encanto pelas cores e exuberância das roupas são os principais fatores que aguçam a curiosidade de turistas que compram os pacotes.

Ocorre que a idéia de um negócio com retorno garantido tem incitado a utilização equivocada. O único gasto de guias e agências que trabalham de forma errada é com o transpor te.

Embora os casos relatados sejam freqüentes, não há controle de queixas, e ações de combate são restritas a cada casa. A Federação Nacional do Culto Afro (Fenacab) recebe cerca de 30 queixas por mês, mas referentes a guias que trabalham de forma independente.

“De agência, a gente nunca recebeu. Sabemos que não existe uma preparação”, conta o presidente da Fenacab, Aristides Oliveira Mascarenhas. Há dois anos, a federação não promove cursos de capacitação para guias que realizam visitas a terreiros. “Por causa das queixas, devemos formar mais uma turma em outubro”, afirma.

Já na Associação Brasileira de Agências de Viagens da Bahia (Abav-Bahia), nunca houve reclamações.

“É provável que isso ocorra, mas nunca chegou até a Abav”, garante o presidente da entidade, Pedro Costa. Por outro lado, relatos não faltam. “Os turistas são vítimas, os guias devem se informar sobre o regulamento de cada casa.

Aqui ninguém entra com celular ou máquina fotográfica. Muita gente já ficou do lado de fora, pois aparece com roupas de cores escuras e decotes. Outros chegam cedo para sentar, mas alguns lugares são reservados”, conta a ialorixá do Terreiro do Cobre (Engenho Velho da Federação), mãe Valnísia.

EXIGÊNCIAS – No Terreiro do Gantois, a situação não é diferente.

A fama contribui ainda mais para atrair visitas constantes e numerosas.

A ialorixá do Gantois (Federação), mãe Carmem, lembra que um grupo de turistas chegou a exigir as ofertas do pacote comprado.

“Eles disseram que pagaram por uma apresentação, jantar e cadeira”, conta.

Como alerta para os problemas que os terreiros têm enfrentado, mãe Stella de Oxóssi decidiu realizar uma discussão sobre o tema.

Hoje, das 9h30 às 12h30, guias, agências de viagens, estudantes de turismo e órgãos governamentais que lidam com o tema estão convidados a participar do Seminário Turismo e Candomblé.

Para o doutorando em história No caso do Bogum, os freqüentadores acumulam função. “Os guias levam e deixam os turistas lá, passando para nós a responsabilidade de cuidar dessas pessoas. Temos a obrigação religiosa e temos que dar assistência aos visitantes.

Muitos terreiros não têm estrutura para receber muita gente”, dimensiona Jaime Sodré.

O tata de inquice Anselmo, do Terreiro Mokambo, declara que tem tido sorte. Em sua casa, ocorrem encontros com estudantes de turismo para conscientização dos social e religioso do candomblé (xincarangoma – sacerdote músico – do Tanuri Junçara e oloê – espécie de conselheiro – do Terreiro Bogum; os dois localizados no Engenho Velho da Federação), Jaime Sodré, a situação atual tem causa histórica. “O candomblé associado ao turismo na Bahia não foi precedido de um estudo sobre a opinião das pessoas que fazem parte da religião. Partiu-se do princípio de que tudo da comunidade negra não precisa de consulta, pode ser usado”, avalia Sodré.

futuros profissionais. “Nunca tive problemas. Mas sei que isso acontece, algumas casas negociam apresentações. Mas não podemos permitir que os valores mudem e acabem com a tradição”, comenta Anselmo.

Outra tentativa de reverter o quadro atual será do Terreiro do Bogum. Nos próximos três meses (outubro, novembro e dezembro), ainda sem data definida, ocorrerá o Festival Gastronômico Jeje. A partir do pagamento do ingresso, os interessados terão acesso a palestras, apresentações musicais, além da degustação da culinária específica com um novo prato a cada dia.

Dentre outros projetos, está também o uso do turismo como meio de movimentar a economia do terreiro, segundo Jaime Sodré.

“Cada casa tem muita história para contar. A partir do turismo de inclusão, podemos formar freqüentadores do terreiro para atender turistas, contando a história do local.

Isso irá estimular a memória, preservando a tradição”, aposta.

Seminário é organizado para orientar setores interessados

Na entrada da Casa de Xangô, uma placa alerta sobre a proibição de uso de aparelhos como celulares e filmadoras.
Tendo em vista os problemas que os terreiros têm enfrentado com turistas que, por desconhecimento, não se comportam da forma adequada, veio a idéia de realizar o Seminário Turismo e Candomblé, no Ilê Axé Opô Afonjá, situado na Rua Direta de São Gonçalo, 557 – Cabula.
“Sabemos que religião e cultura se integram, mas temos a responsabilidade de preservar as raízes, respeitando os valores e os princípios”, alerta mãe Stella.
O seminário ocorre com a proposta de desfazer uma série de mal-entendidos e distorções sobre a religião. A primeira conversa sobre o assunto terá uma cartilha em português e inglês como produto, contendo normas e esclarecimentos acerca do tema.
Durante a manhã, a ialorixá mãe Stella de Oxóssi, o historiador Ubiratan Castro e o presidente da Sociedade Cruz Santa do Axé Opô Afonjá, Francisco Codes, falarão sobre a religião, o terreiro, além do significado e a forma de comportamento adequado em uma cerimônia. “Conhecimento sem devassar a religião, sem falar sobre os preceitos”, adianta mãe Stella.

MUDANÇA – A maioria dos sacerdotes e sacerdotisas do candomblé é a favor do término dessa relação informal, que tem causado alguns desconfortos.
Dentro da mesma linha, o projeto de Turismo Étnico da Secretaria Estadual de Turismo (Setur) pretende apoiar ações que visem à mudança de postura com relação ao candomblé. “É preciso tratar a religião com respeito, sem interferir no regulamento de cada casa”, diz o coordenador do Turismo Étnico, Billy Arquimimo.
Uma das ações será o apoio a eventos que visem à conscientização de visitantes e profissionais da área. Dentre outros projetos que serão apoiados pela secretaria está a construção de pousadas em alguns templos, para acolher visitantes, em projeto previsto para o próximo ano. A Setur pretende realizar um fórum para apresentar toda a estrutura do turismo étnico em evento realizado para profissionais da área e representantes de terreiros. (M.O.)

Agências vendem visitas a terreiros

A Catedral Basílica e a Igreja do Rosário dos Pretos são os principais pontos que servem como escritório dos guias avulsos no Pelourinho. Ao sair das igrejas, os turistas são abordados com o conhecido carisma baiano e convidados a participar de um cerimônia autêntica de candomblé. Aliás, autenticidade é o termo mais utilizado, por alguns guias e agências, como garantia de que a pessoa está pagando para conhecer a realidade.
No posto da Bahiatursa no Pelourinho, a reportagem de A TARDE percebeu que a fonte de informação oficial também não está preparada. Lá, uma das atendentes cedeu o calendário de festas disponíveis com horários e datas. Mas afirmou que era garantido local para sentar e estacionar carros.
Na pesquisa sobre as visitas, todos foram unânimes em dizer que fotografias e filmagens eram proibidas e que mulher e homem ficavam em lados opostos. Mas na agência Tours Bahia, a agente afirmou que nas visitas durante o dia era permitido entrar nos quartos dos orixás em qualquer terreiro.
Como a fiscalização não existe, a vice-presidente do Sindicato dos Guias de Turismo do Estado da Bahia (Singtur-BA), Daniela de Carvalho Concu, faz um alerta aos turistas. “Todo guia autorizado pode ser identificado pela credencial emitida pelo Ministério do Turismo”. Em Salvador, são cerca de 360 guias trabalhando, e quase 600 em todo o Estado da Bahia. A entidade não tem noção de quantas pessoas trabalham como guia de turismo de forma irregular.

PRÁTICA – Depois de cinco anos na área, o guia G.F.N. (nome fictício) deixou de promover visitas a terreiros, pois perdeu o estímulo por causa da atuação de alguns colegas.
“Os turistas erram por falta de esclarecimento e vão com roupas curtas e decotadas. Os guias, é por falta de respeito”, comenta, para depois alertar para que os profissionais determinem a quantidade de visitantes de acordo com a capacidade de cada terreiro e orientem os visitantes com relação às cores das roupas, que devem ser claras e sem decotes. Também são proibidas bermudas e a utilização de filmadoras, gravadores e máquinas fotográficas. (M.O.)

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