Mãe Mirinha de Portão

21/12/1924 - 18/02/1989

Hoje, faz 31 anos que a senhora partiu para fortalecer nossa ancestralidade e, como aprendi que NÃO MORRE AQUELE QUE NOS VIVOS VIVE e que a senhora vive em mim cada dia mais forte. Aproveito esta data para lhe agradecer por tudo que a senhora representa para mim, pela sua generosidade de se tornar Minha Mãe. Obrigado pelo carinho maternal, pelos ensinamentos religiosos, de vida, pela gerança ancestral da Goméia e pelo seu acolhimento. Gratidão, sempre será o sentimento que dedico à senhora.

Sua Benção!

A Importância do Reconhecimento Por Parte do Estado

“O tombamento traz respeitabilidade por parte do Estado não só para o Mokambo, mas para toda a religião de matriz africana na Bahia, para um povo que sofreu por séculos por exercer a sua cultura”. Com essas palavras, o Taata Anselmo Santos, do Terreiro do Mokambo, traduziu a emoção com que recebeu o certificado e placa de ‘Patrimônio da Bahia’ entregue ontem (23) à tarde pelo diretor geral do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (IPAC), João Carlos de Oliveira. “Até poucos anos atrás, na década de 1970, os candomblés tinham que pedir permissão à Polícia do Estado da Bahia”, completou o zelador do terreiro Onzó Nguzo za Nkizi Dandalunda Ye Tempo que descende do Terreiro São Jorge Filho da Goméia, da famosa Mãe Mirinha do Portão (Altanira Souza 1924—1989).

Para Taata Anselmo, além de trazer reconhecimento dos poderes públicos, o tombamento do IPAC possibilita conseguir recursos com projetos, já que o bem cultural tombado tem prioridade nas linhas de financiamento. “Temos que ter continuidade e sustentabilidade para garantir que as futuras gerações tenham acesso a esse conhecimento cultural”, explica. Localizado na Vila 2 de Julho, Trobogy, na Avenida Paralela, em Salvador, o Mokambo foi fundado em 1996 pelas mãos do Taata Kamukenge (Gervásio da Silva, Pai Zequinha), o Taata Pokó do Terreiro São Jorge Filho da Goméia. A tradução do nome do terreiro é a ‘Casa da Força Espiritual das Divindades Dandalunda e Tempo’.

ANGOLA e BANTU A história dos terreiros da nação Angola também foi destaque na fala do Taata Anselmo. “Os primeiros negros escravizados que chegaram ao Brasil vinham do atual território de Angola – os Bantu – entre os séculos XVI e XVIII, por isso, cerca de 90% da herança africana que temos vem desses povos”, disse. O diretor do IPAC destacou a atuação do Mokambo nas políticas públicas. “Taata Anselmo conseguiu R$ 89 mil do Fundo de Cultura ao inscrever Plano Museológico e Memorial no Edital Museus/IPAC, se tornando exemplo para outros terreiros”, disse João Carlos. “Com o plano museológico conseguimos implantar visitas guiadas, pesquisas, oficinas, dinamizar a biblioteca e o núcleo educativo” completa Taata Anselmo.

O diretor do IPAC lembrou das ações integradas. “A municipalidade de Salvador, órgãos e secretarias municipais e estaduais devem estar atentos e atuantes junto a essas comunidades que têm a sua importância cultural reconhecida oficialmente”, comentou. Segundo ele, as comunidades podem solicitar melhorias de esgotamento sanitário, acessibilidade, energia elétrica, comunicação e outras ações de infraestrutura que beneficiam não somente o terreiro mas todo o bairro onde estiver instalado.

LIVROS e VÍDEOS Taata Anselmo falou do trabalho do IPAC. “Temos uma mudança efetiva nessa gestão do IPAC e comprovamos a aproximação que o instituto tem feito nos dois últimos anos com a comunidade religiosa de matriz africana na Bahia; isso é um diferencial!”, finalizou. Representantes de terreiros de candomblé de Salvador, como o Axé Opô Afonjá, além de autoridades, artistas e personalidades estiveram presentes na cerimônia. Logo após, começou a Festa de Mutalambô (Oxóssi no Kêto). O IPAC desenvolve muitas ações de proteção aos terreiros, não só tombamentos e registros, mas, publicação de livros e vídeo-documentários.

Fonte: IPAC- Acesso aqui.

Um resgate à herança cultural deixada pelo povo Bantu Documentário mostra a ancestralidade africana na formação da cultura brasileira.

O contato com o Candomblé e a vontade de contar a história do povo Bantu, fez com que a jornalista Soraya Públio Mesquita idealizasse o documentário “Mokambo: Nguzu Malunda Bantu (Força da Tradição Buntu)”. Além de idealizadora, a jornalista de 54 anos,  que há 15 se dedica exclusivamente a produzir documentários  é também diretora e roteirista da produção. Junto dela, o roteiro também é assinado pelo co- roteirista Edson Felloni Borges.

A obra é patrocinada pelo Programa Petrobras Cultural 2016 e realizada pela DPE Produções, com produção executiva de Maurício Xavier. Além de mostrar a ritualística de registros feitos no Terreiro Mokambo, em Salvador, na Bahia, casa que já foi agraciada com o prêmio de Espaço e Visibilidade da Tradição Bantu no Brasil pelo Iphan, e é comandada  por Taata Anselmo, importante figura do Candomblé, mestre em Educação Contemporânea, além de doutorando pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). O documentário também conta com depoimentos de importantes antropólogos e historiadores.  A seguir, a baiana conta como se desenvolveu o processo que levou a esta verdadeira homenagem aos ancestrais.

O “Mokambo: Nguzu Malunda Bantu” é seu primeiro trabalho focado na religiosidade e na cultura afro-brasileira?

Não. Em 2004, também fui diretora e roteirista do documentário “Gaiaku Luiza – Força e Magia dos Voduns”, que é focado na trajetória do povo Fon que se instalou no Recôncavo Baiano. A história do povo Fon é muito bonita e ampla. Grande parte da nossa cultura tem influência da herança deixada pelos escravizados africanos, de um modo geral, o Brasil não se dá conta disso.

Qual é a sua relação com esta religiosidade?

Não sou praticante do Candomblé, mas antes do documentário já tinha ido em algumas festas. No entanto, nunca tive uma relação profunda com a religião, até então.

De que maneira o documentário aborda a herança cultural deixada por nossos antepassados?

O documentário é uma celebração à toda a herança cultural Bantu que está enraizada na nossa cultura,  a exemplo da capoeira, a culinária de dendê, as irmandades religiosas presentes no Brasil…Nós contamos com a participação especial do artista plástico Bel Borba, que durante o filme faz uma escultura no mesmo molde que os escravos Bantu faziam. Através deste trabalho feito pelo Bel, nós homenageamos o povo Bantu que trouxe para o Brasil a cultura da forja do ferro.

Como surgiu a ideia de produzir o documentário? Já conhecia Taata Anselmo

O documentário surgiu quando indiquei Taata Anselmo para dois amigos que queriam jogar búzios. Somos amigos de longa data. Há 25 anos trabalhamos juntos na TV Bandeirantes. Na época, ele era produtor e eu era editora do Jornal da Noite. Mas, apesar de ser amiga dele, ainda não tinha conhecido o seu terreiro. A partir de uma conversa, inicialmente tivemos a ideia de registrar a comemoração de seus 40  anos de santo. Mas conforme fui entrando em contato com aquela cultura que gira em torno do Candomblé, decidi produzir o documentário focando na herança cultural do povo Bantu.

O projeto foi produzido de forma independente?

Não. Foi patrocinado pelo Programa Petrobras Cultural 2016. E como apoiadores culturais tivemos além do Mokambo, o Instituto Gota, Anna Fullor e Duplo Estilo.

Quanto tempo durou o processo de produção do documentário até seu lançamento?

Depois de sermos notificados que fomos aprovados no programa Petrobras Cultural, iniciamos  em 2016 registrando diversas festas que aconteciam no terreiro (Mokambo). Os depoimentos começaram a ser gravados no segundo semestre de 2017.

As gravações forem feitas em outros terreiros?

Não. Todos os registros foram feitos no Mokambo. Lá existe um espaço museológico chamado Kissimbiê Águas do Saber, onde conta a história do povo Bantu e abriga diversos objetos e vestimentas ligadas à religião desde o século XIX. Um dos objetos mais importantes é a cadeira de Jubiabá, que na linhagem ancestral de Tata Ancelmo é seu Bisavô de Santo. Essa cadeira foi sequestrada pela polícia na década de 1920 e ficou 95 anos presa. Ele conseguiu resgatar essa cadeira em 2017 e está lá. Inclusive, teve toda uma cerimônia do retorno da cadeira e que é uma das cenas mais bonitas do filme. Providenciamos também imagens da África para fazer um paralelo.

Que tipo de registro foi feito no barracão?

Registramos cenas do cotidiano do terreiro. Não só o início das festas e rituais, mas também as atividades que ele faz voltadas para a comunidade, como feiras de saúde. Teve também o encontro de índios chamado de trocas de saberes ancestrais. O Candomblé Congo/Angola tem os indígenas como o primeiro ancestral aqui no Brasil. Apesar da herança cultural, o Candomblé não é africano, e sim, brasileiro.

Quem são os historiadores e antropólogos que no documentário contribuem com depoimentos?

O documentário conta com estudiosos e especialistas como: a professora Yeda Pessoa de Castro, que é a única brasileira a defender uma tese de Doutorado em uma universidade africana, e é também membro do conselho do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. Ordep Serra é outro, que é um antropólogo muito conhecido nacionalmente e internacionalmente, além de doutor em Antropologia, Mateus Aleluia também contribui. Trata-se de um dos integrantes do grupo Tincoãs e morou por 20 anos em Angola… Ele inclusive, é responsável por uma das trilhas sonoras do documentário. Tem também a etnomusicóloga alemã Katharina Doring, que mora na Bahia há 23 anos e é uma das colaboradoras da tese que defendeu o tombamento do samba, além de outros nomes de peso que deram seus depoimentos.

Durante as gravações, houve algum momento específico que para você tenha sido marcante?

Todas as celebrações no terreiro (Mokambo) foram muito especiais. É tudo muito bonito, um local onde se sente muita paz.  A energia é muito forte, e é isso que me atrai e me deixa emocionada.

Você pretende futuramente desenvolver outros trabalhos com esta temática?

Sim, pretendo. Essa temática me despertou uma curiosidade interessante, então, pretendo futuramente desenvolver um trabalho com um foco um pouco maior na questão da mulher negra. Quero assumir esta temática em meu próximo trabalho.

De que maneira o público pode ter acesso ao documentário?

Estamos realizando lançamentos. No dia 28 de abril, o Mokambo será exibido na abertura de uma mostra de cinema com temática africana que vai acontecer no Cinemateca Capitólio, no centro de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Em maio, estaremos no cinema São Luís, no Maranhão. E em junho, abriremos o Festival Afro Bahia, em Whashington, nos Estados Unidos. Futuramente, depois dos lançamentos e de participar de festivais, o filme estará disponível gratuitamente na internet.

Fonte: Notícias de Terreiro

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Celebração ao Nkisi Dandalunda